Textos extraídos dos maiores jornais do país

O Estado de São Paulo

16/09/2000-Ex-lutador é autuado por desacato à autoridade Rio de Janeiro

O técnico em informática e ex-lutador de jiu-jitsu Rogério Gracie, de 31 anos, foi autuado hoje por desacato à autoridade depois de discutir com guardas municipais. Segundo a versão dos guardas, Gracie teria xingado Hélio Jorge de Souza, de 31 anos, de "macaco e crioulo safado". Levado para a 5ª DP (Cidade Nova), onde prestou depoimento, Gracie foi liberado após pagar fiança de R$ 40,00.

De acordo com os guardas municipais, Gracie foi hoje de manhã ao depósito de carros da Companhia de Engenharia do Tráfego (CET-Rio), no Rua Santa Luzia, para retirar o seu Escort, que havia sido rebocado no dia anterior, na Rua Paissandu, no Flamengo. Há nove anos trabalhando na Guarda Municipal, Souza disse que Gracie chegou ao depósito "querendo tirar o carro à força". Souza disse que o técnico em informática teria ficado mais alterado quando constatou que o freio de mão do seu carro estava frouxo. "Às vezes, para rebocar um carro é necessário afrouxar o freio de mão, mas existe um mecânico no depósito para fazer um ajuste", explicou o policial. Durante a discussão, Gracie chegou a afirmar que era policial federal e ainda ameaçou um outro companheiro, insinuando que estava armado. "Quando tentei argumentar, ele me chamou de macaco e crioulo safado", contou.

A polícia militar foi acionada e levou Gracie para a delegacia. Gracie disse que chegou no depósito e encontrou o freio de mão do Escort quebrado. Além disso, o carro teria custado a ligar. Após um bate-boca, ele tentou sair sem assinar a guia de liberação e foi impedido pelos policiais, que fecharam o portão do depósito.

O técnico de informática faz parte da família Gracie, conhecida por ter introduzido o jiu-jitsu no Brasil. Atualmente, no entanto, os Gracie também têm o seu nome associado a confusões.

Em fevereiro deste ano, o lutador Ryan Gracie, de 25 anos, filho do presidente da Federação Estadual de Jiu-Jítsu, Robson Gracie, foi preso sob acusação de esfaquear um comerciante na casa noturna Ilha da Fantasia, na Barra da Tijuca, na zona oeste. Ele chegou a ser preso, mas foi solto e mudou-se para São Paulo.

Em agosto, quatro lutadores da academia Gracie - entre eles, Roger Gracie Gomes, de 18 anos, foram presos depois de atirarem com pistolas de ar comprimido contendo bolas de borracha em travestis e prostitutas, em Copacabana (zona sul). Eles foram autuados por lesão corporal leve, cuja pena é de 3 meses a 1 ano de prisão, e respondem ao processo em liberdade porque não tinham antecedentes criminais.

Adriana Ferreira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal da tarde

Corpo tão perfeito quanto destruído

Não são apenas drogas veterinárias, para animais com dez vezes o peso do ser humano. São essas drogas ainda em `doses cavalares'. Resultados? Doenças sérias. Até a morte O conceito pejorativo de modismo há muito tempo ficou para trás, só que as mazelas se perpetuam com as "novas descobertas". Demonstrar aparência saudável ou simplesmente um físico bonito, que impressione e cause inveja pela definição dos músculos, é desejo comum entre inúmeros freqüentadores de academias - sem contar os atletas que necessitam apresentar condições semelhantes para competir.

Indicador mais explícito de saúde do que um corpo malhado é difícil encontrar. O problema começa quando a obsessão supera a razão e os fins passam a justificar os meios.

Um exemplo? Tomar remédios indicados para uso animal - especialmente os aplicados em cavalos e éguas - como forma de adquirir uma pseudomassa muscular, um pseudofísico, uma pseudoforça e desencadear um real câncer de fígado, um real câncer de próstata, uma real infertilidade ou uma real diminuição da libido.

Morte Um fato? Desabar sobre o tatame durante uma luta. Deixar sem ação árbitros e competidores que participam de um campeonato de jiu-jítsu. Causar perplexidade pela incoerência de objetivos quando o diagnóstico é a morte, possivelmente ocasionada pela ingestão do medicamento Potenay - uma espécie de estimulante utilizado justamente em eqüinos. Foi o que provavelmente aconteceu com o estudante cearense Jean Mendonça de Mesquita, há cerca de 15 dias.

Aos 23 anos, ele foi vítima de infarto fulminante enquanto competia para, além da vitória, adquirir confiança e montar sua própria academia em Fortaleza. O laudo médico final ainda não está pronto, mas a investigação preliminar - que também se baseia em depoimentos - aponta que a tragédia deve ter sido causada pela ingestão do Potenay - o remédio, dentre outras coisas, eleva a pressão arterial e aumenta a freqüência cardíaca. "A literatura sobre o assunto (consumo de remédios indicados para animais) ainda não revela todos os efeitos maléficos. Ela não cita todas as reações.

O que se sabe é que o uso cumulativo gera tumores e infertilidade. Porém, é perfeitamente possível que algumas predisposições, como defeito de válvula do coração, possam ser acentuadas e causar a morte", diz José Carlos Nassutte, farmacologista, professor da Universidade de São Paulo. Doses `cavalares' Por mais absurda que seja, é essa a onda que agora anda tragando os que cultivam a arte da malhação - seja por esporte ou apenas por vaidade -, o desfecho que atletas ou simpatizantes podem ter pela frente. "São medicamentos à base de testosterona (hormônio masculino). Se o uso contínuo dessa substância quando é fabricada para humanos já tem efeitos fortíssimos, imagine isso acrescido em cerca de dez vezes", diz Nassutte. Na prática, ingere-se a "dose cavalar" do remédio. "Normalmente, um anabolizante aplicado em pessoas tem 25 miligramas.

Para um animal, com dez vezes o peso de um ser humano, cada dose passa a conter 200 a 250 miligramas. É a mesma composição, só que em proporções gigantescas. A médio prazo, o uso irrestrito e sem controle vai acabar em sérios malefícios à saúde, a maioria irreversíveis", afirma o farmacologista. O resultado que o indivíduo busca (o de aparente ganho de massa muscular) chega bem mais rápido. Assim como as doenças que certamente vai desenvolver.

Crislaine Neves, especial para o JT

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diário Popular

Ensinar a matar

Um menino de 20 anos foi morto estupidamente em Brasília por quatro animais travestidos de gente. Uma vez mais se repete a brutalidade incontrolada de jovens assassinos de classe média, integrantes de uma geração de bestas humanas, criados por pais que, em vez de lhes dar educação humanista, preferiram incentivar neles a prática de artes marciais; em vez de incentivá-los a ser gente, preferiram transfigurá-los em bestas-feras.

É curioso que esse tipo de arma — lutas que ensinam formas de matar com as próprias mãos — ainda receba o rótulo de ‘‘arte’’ ou, quando menos, de ‘‘esporte’’. Arte, em sua essência era o que praticava João Cláudio, o menino assassinado, integrante de uma orquestra da Universidade de Brasília, onde tocava teclado. A prática de seus assassinos não era, não é e não será nunca uma ‘‘arte’’. Será, no máximo, uma forma bestial de ceifar vidas.

Os governos precisam tomar providências imediatas contra a disseminação de lutas que ensinam a matar. A sociedade não pode ter condescendência com esse tipo de prática: urge colocá-la fora da lei, tenha ela que apelido tiver — judô, jiu-jitsu, tae-kwon-do, luta-livre, boxe ocidental ou tailandês. São, todas elas, formas bestiais de agredir, primitivas, perigosas e incompatíveis com a sociedade civilizada dos nossos tempos.

Está mais do que provado: essas lutas formam praticantes que, em sua imensa maioria, adquirem valores nocivos e perversos, que cultuam a força física como principal atributo do homem, que modelam os valores da sociedade pela mensuração da força e que, por fim, levam sua prática violenta para as ruas, atingindo indistintamente jovens que não partilham de seus princípios bestiais.

Os defensores dessas práticas — alguns até venerandos — repetem sempre a mesma cantilena, procurando relacioná-las com culturas milenares e referenciadas com a reflexão. Nada mais absurdo e falso. Essas lutas excitam seus praticantes a adotar valores relacionados com a força física e com sistemas de vida primitivos — tão primitivos quanto a origem ilocalizada dessas lutas, em geral relacionadas com atividades guerreiras de um passado remoto.

Está provado que elas são nocivas e perigosas à sociedade de hoje e que seus praticantes são tão ou mais perigosos do que criminosos comuns. Criminosos comuns, pelo menos, têm origem familiar em regiões humildes e menos dotadas de condições de educação. Esses criminosos marciais são originados em extratos da classe média, passaram por boas escolas e, em tese, deveriam ter aprendido valores da convivência social.

Esses criminosos do músculo têm uma referência comum: são todos filhos de pais fracassados, que lhes deram uma educação estúpida e lhes transmitiram ou incentivaram a paixão pela bestialidade das lutas. Não há que perder muito tempo discutindo quem tem a culpa maior, se a galinha-pai ou se o ovo-filho.

Urgente é que os nossos parlamentos representativos avancem na discussão de meios para proteger a sociedade desses selvagens. E que os governos comecem a cassar alvarás de funcionamento de todas as academias que ensinem lutas, esportes e ‘‘artes’’ que cultuem o confronto físico agressivo e violento como forma de enfrentamento dos homens.

Há séculos o homem busca formas menos contundentes, menos selvagens e bestiais de resolver suas pendências. É insuportável que as antigas formas, que foram banidas como métodos resolutivos, sejam mantidas vivas como ‘‘esporte’’ ou como ‘‘arte’’. Esporte e arte são outras coisas. Quem assassina jovens a socos não é esportista ou artista. É apenas um assassino bestial.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diário Popular

E nossos filhos?

No dia 11 de agosto, em protesto contra o assassinato do jovem João Cláudio, em Brasília, escrevi uma coluna pedindo a extinção das chamadas ‘‘artes marciais’’ no Brasil. Protestava contra mais um trágico assassinato de um menino indefeso por gangues dos chamados pitboys — jovens de classe média que aprendem lutas marciais e saem pelas ruas ameaçando a vida de outras pessoas.

Nenhuma das minhas colunas teve tanta repercussão. Chegaram dezenas de cartas, muitas favoráveis a meus argumentos, muitas contrárias. Às favoráveis, agradeço. As contrárias têm dois tipos nítidos de teor. A maioria é articulada e educada; a elas dedico a coluna de hoje. Outras são agressivas e ameaçadoras; a estas, nada tenho a responder. Elas apenas reforçam o meu protesto.

O menino assassinado em Brasília não foi a primeira vítima de praticantes das chamadas ‘‘artes marciais’’. Lá mesmo, na capital brasileira, há alguns anos aconteceu o assassinato de outro menino, Marco Antônio, por gangues similares. Em todo o País, notadamente nas grandes cidades, acumulam-se os registros policiais contra pitboys que agridem pessoas gratuitamente nos dias e nas noites.

Os argumentos civilizados que me enviaram enumeram ponderações. Dizem os defensores das chamadas ‘‘artes marciais’’ que o seu ensino no Brasil segue padrões recomendados em todo o mundo. Insistem em que o ensino da técnica é acompanhado de uma didática ética do esporte: quem aprende a luta, aprende também que não poderá usá-la agressivamente contra pessoas sem preparo para enfrentá-la.

Em geral, alegam, as lutas incorporam tradições milenares, oriundas, sim, de um referencial bélico, mas adaptadas ao longo do tempo para um uso meramente competitivo (com um sentido objetivamente esportivo). Lembram que o Brasil conseguiu firmar-se como uma referência mundial em algumas dessas práticas desportivas, como o judô, o jiu-jitsu e o tae-kwon-do. E observam: a própria cultura brasileira gerou uma prática, instalada entre a luta e a dança, que encanta o mundo — a capoeira.

De acordo com esses argumentos, seus cultores anunciam e ensinam suas práticas emprestando a elas um caráter essencialmente esportivo, aspecto, aliás, que se reforça e sustenta oficialmente nas federações oficiais existentes no País. E concluem salientando que a imensa maioria dos praticantes de ‘‘artes marciais’’ é de pessoas pacíficas, adeptas do procedimento reflexivo que essas lutas inspiram. Alguns raros praticantes, reconhecem as cartas mais articuladas, apresentam desvios, caem nas páginas policiais e acabam maculando toda uma comunidade que ama aquelas ‘‘artes’’.

Algumas dessas cartas me sensibilizaram pela maneira apaixonada como defendem essas práticas e pela forma engajada como asseguram que elas são mais construtivas do que destrutivas. Não tenho procuração para representar publicamente os horrores da sociedade brasileira pelos ataques de pitboys. Mas, como mãe assustada com a agressão que meu filho poderá eventualmente sofrer, continuo considerando que a questão das ‘‘artes marciais’’ merece um tratamento mais profundo além da mera classificação como esporte e sua ampla liberação.

Classificá-las como esporte implica estabelecer garantias para a sociedade brasileira. Digamos que a sociedade brasileira aceite fazer um acordo: de um lado, ela expressa sua tolerância crítica com as ‘‘artes marciais’’; de outro, as academias e federações esportivas aceitam submeter-se a critérios mais rígidos sobre eventuais excessos. Os dois lados se comprometem: a sociedade não cobrará medidas duras e os praticantes garantem que nenhum deles matará nossos filhos gratuitamente. Se num prazo de, digamos, dois anos, esse acordo se sustentar, haverá confiança para que as ‘‘artes marciais’’ continuem no Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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